O Cineclube do Colégio Tia Ana Maria (CCTAM), que foi implantado na sexta-feira (6) em solenidade marcante e prestigiada por diversas autoridades políticas, empresariais e culturais do Norte Pioneiro, vai realizar a sua primeira sessão amanhã (sexta-feira, 13), com o filme Sunrise (Aurora, 1927), do genial diretor alemão Friedrich Wilhelm Murnau, nascido em 1888 e falecido prematuramente aos 43 anos de idade num acidente de automóvel em 1931, na Califórnia (EUA).
Dessa forma, daremos início ao projeto de apresentação da História do Cinema através de filmes realizados pelos mais importantes diretores, que souberam, cada um no seu estilo, fazer do cinema uma arte.
Com a implantação desse espaço de formação, os associados poderão assistir, entender e debater filmes como, por exemplo, “O nascimento de uma nação” (1915), de D. W. Griffith, reconhecido como o inventor da linguagem cinematográfica, onde o diretor proporcionou ao cinema, a famosa “montagem paralela”, dentre outros recursos, inscrevendo o nome do diretor para sempre na História do Cinema Mundial.
Vamos assistir ainda: “Outubro” (1927), de Sergei Eisenstein, genial cineasta que possibilitou através da “montagem de atrações”, um dimensionamento ainda maior das possibilidades da imagem em determinar a força de uma idéia e, no caso dele, a propaganda do comunismo.
Mas por que a nossa primeira projeção será “Aurora”? Pelo simples fato de se fazer uma singela homenagem a Murnau, marcando assim, a nossa primeira projeção com esse inesquecível filme. Por isso, decidimos dar um corte na cronologia das projeções, que poderia, por exemplo, começar com o citado filme de Griffith.
Aurora, obra-prima da cinematografia internacional, é considerado pelo filósofo Olavo de Carvalho como o melhor filme de todos os tempos. Disse ele na sua análise intitulada “Aurora, de F.W. Murnau (1927): cinema e metafísica”, comparando Murnau a outro grande mestre do cinema, Eisenstein:
“Quando se vê que o grande Eisenstein nada mais fazia senão juntar imagens com tanto esforço para produzir, por associação, alguma patriotada a serviço da propaganda comunista, aí é que a arte de Murnau nos surpreende por sua capacidade de conduzir, através do jogo de imagens, a algo que está acima de toda imagem e mesmo acima de nossa capacidade de expressão em palavras.” Para quem estiver interessado em ler o citado ensaio analítico, que é o melhor já redigido sobre o filme (uma análise definitiva), basta acessar www.novocinema.blogspot.com
Murnau é um artista que não se deixou prender pelo estilo expressionista legado por Robert Wiene, diretor do filme “O gabinete do doutor Caligari” (1919), mas ele foi além e não se deixou prender às convenções da estética. Com o filme “Nosferatu” (1921), por exemplo, baseado na obra Drácula, romance de Bram Stocker, sem fazer menção nos créditos, observamos o seu estilo sutil na consecução de uma tomada de câmera (sempre com um objetivo) para revelar o inconsciente dos seus personagens e mais ainda:
Afeito a uma corrente chamada Kammerspiel, Murnau não cria os seus filmes centrados, por exemplo, nas distorções cenográficas, como a que observamos no filme de Wiene. Em Nosferatu, Murnau levou a sua equipe para cenários naturais, com locações em cidades como Bremen e Lauenburg, por exemplo.
Em Nofesratu, nos surpreende, além do cenário natural, o aproveitamento realista imprimido pelo diretor, levando-nos ao questionamento sobre a angústia, a questão da morte, o lado perverso do homem. Senão ainda, podemos observar a capacidade inventiva, que devem ser reparadas nas cenas como a entrada do navio no porto; o desaparecimento do vampiro, na hora em que o galo canta; Harker numa viagem ao país dos fantasmas, dentre outras elaborações desse mestre do cinema mudo.
Respeitado por outros grandes diretores, como Charles Chaplin, o realizador de “Tempos Modernos” (1936), filme que faz uma dura crítica ao cinema falado, e que vamos também assistir no nosso Cineclube CTAM, Chaplin, sob o impacto de Aurora, chegou a afirmar que o cinema mudo tinha chegado à perfeição absoluta. Ele estava coberto de razão.
O papel criador e as possibilidades que se pode obter da câmera, observamos nos grandes filmes de Murnau, mas foi com “Aurora”, que o diretor alemão fez a câmera mover para perscrutar o sentimento dos personagens com a sutileza de um poeta. Sim, o filósofo Olavo de Carvalho tem razão, é uma obra de dimensão metafísica.
Este texto, escrito por L. C. Bragança de Pina (jornalista, roteirista, cineasta e professor), foi publicado pela Tribuna do Vale na edição de hoje (12/6). Pina é também diretor e curador do Cineclube CTAM.
quinta-feira, 12 de junho de 2008
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